Como se tornar protagonista da indústria 4.0 no Brasil?

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A chamada 4ª revolução industrial é uma tendência definitiva. Muitas empresas já estão se beneficiando da digitalização, e isso quer dizer que, mais cedo ou mais tarde, as demais empresas precisarão se adaptar a ela ou simplesmente não poderão competir. Mas, embora haja uma diversidade grande em termos de transformação digital, o contexto geral é de atraso na consolidação da Indústria 4.0 no Brasil.

A boa notícia é que não é impossível se tornar protagonista nesse cenário de busca por inovação. E é por isso que convidamos o especialista Severiano Leão Macedo para discutir algumas iniciativas bem-vindas para a empresa que quer se atualizar.

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O atraso brasileiro em relação à digitalização industrial

A Indústria 4.0 no Brasil caminha a passos lentos. Para que você tenha uma ideia, em 2018, um estudo realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e divulgado pelo jornal Estadão trouxe uma conclusão embaraçosa: dos 24 setores industrias do país, mais da metade está atrasada em relação à adoção de tecnologias digitais se comparada à realidade global.

E essa constatação não é inédita. De acordo com informações de 2017 organizadas pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), o Brasil está na traseira em muitos dos pilares da Indústria 4.0, como o investimento em robôs industriais.

Segundo os dados, na época, nosso país tinha apenas 11 robôs para cada 10 mil trabalhadores, enquanto na Coréia do Sul esse número já era de 531 e, na Alemanha, 301. Apesar disso, nosso entrevistado faz questão de enfatizar que o Brasil é um país de extremos:

Precisamos levar em conta que o parque industrial brasileiro é bastante diverso. Nós temos, às vezes dentro do mesmo grupo empresarial, unidades de negócios extremamente avançadas do ponto de vista de automação e digitalização industrial, operando com robôs sem presença humana e, ao mesmo tempo, empresas onde o nível de automação está bem aquém da média nacional.

O especialista comenta que essa falta de consistência no estabelecimento da Indústria 4.0 no Brasil tem a ver não somente com atraso nas tecnologias. Também contribuem a falta de mão de obra habilitada para explorar as novas tecnologias digitais e a ausência de processos bem-estabelecidos para tirar proveito desta digitalização para gerar impacto no negócio.

Para ele, a longa recessão econômica enfrentada pelo país nos últimos anos também serviu para aprofundar os extremos da Indústria Brasileira e afetou a adaptação à Indústria 4.0, pois gerou uma ociosidade significativa em muitas plantas industriais brasileiras. Severiano ainda comenta que a questão do custo energético entra em jogo, pois impacta o poder de competitividade, afinal a substituição de pessoas por máquinas em processos repetitivos sempre leva a um aumento no consumo de energia elétrica.

Por fim, o atraso industrial brasileiro também tem a ver com os silos departamentais. Para o especialista, as empresas operam com uma divisão muito grande entre suas áreas, sendo que há um “abismo cultural” entre os setores de Tecnologia da Informação e outros departamentos voltados a produção industrial.

As ações para alcançar o protagonismo na Indústria 4.0 no Brasil

Com esses problemas em foco, nosso entrevistado deu uma série de dicas para que as empresas comecem a buscar seu protagonismo na Indústria 4.0. Olha só o que ele nos disse!

No curto prazo: estabelecimento de lideranças e entendimento do problema

O primeiro passo é formar lideranças de transformação digital. Severiano comenta que, muitas vezes, existem profissionais que acabam puxando essa discussão sobre a necessidade de adequação às tendências da fábrica do futuro. No entanto, falta o empowerment para exercer essa liderança.

Por isso, ele recomenda a criação oficial de cargos com essa finalidade na empresa, como Chief Digital Officer (CDO) ou Chief Transformation Officer (CTO), com reporte direto ao CEO. De acordo com o especialista, essa medida pode viabilizar o processo de transformação digital nas indústrias no tempo necessário.

Mas é preciso cautela: Vale a pena reforçar que a “paixão por tecnologia” é um erro clássico na busca pelo protagonismo na Indústria 4.0 no Brasil. Isso porque, ao adquirir tecnologias apenas porque estão em alta, sem um entendimento verdadeiro dos problemas operacionais da empresa, elas podem se tornar um investimento sem retorno ou apenas com ROI deficitário para os padrões brasileiros. O Brasil é um país onde o custo de capital ainda é elevado e a mão de obra com baixa qualificação é abundante e relativamente barata.

O especialista deixa claro o que deve ser feito:

Uma vez entendido o problema operacional, é preciso dimensionar os potenciais de ganho para o negócio e só então buscar a dose certa e a quantidade de tecnologias digitais necessárias para impactar e resolver aquele problema. Muitas vezes, isso envolve também certo investimento no desenvolvimento de pessoas e adaptação de processos.

Portanto, outra iniciativa bem-vinda é investir na formação e na adaptação dos profissionais para as novas tecnologias digitais, como a robótica colaborativa e sistemas de comunicação homem-máquina.

No médio prazo: comunicação com os cérebros digitais dos clientes

Severiano nos explica que, antigamente, “ou você competia por custo ou você competia por valor”. Hoje, as empresas competem utilizando plataformas, combinando as duas estratégias anteriores — um conceito que diz respeito aos ambientes nos quais os clientes interagem, por exemplo, avaliando produtos, sistemas, logística etc., através de aplicativos em seus smartphones.

Ou seja, a competição, no contexto da fábrica do futuro diz respeito a novos modelos de negócios com novas formas de comunicação com clientes. Para o representante da Cisco, buscar o protagonismo na Indústria 4.0 no Brasil é algo que vai além dos limites industriais, propriamente ditos. Ele explica:

A Indústria 4.0 é algo que está intramuros, ou seja, está dentro da empresa. Mas a transformação digital envolve o cliente final. Envolve a criação desses novos modelos de negócio, que necessariamente são baseados em plataformas digitais.

O especialista comenta sobre um conceito interessante: o de “cérebros digitais”. Para ele, o que a empresa deve buscar é aproximar dos clientes a partir dos seus smartphones — a nossa memória digital, visto que utilizamos esses aparelhos para organizar afazeres, calcular rotas e muitas outras atividades cerebrais.

Diante disso, ele sugere:

É fundamental para essas empresas ter um processo de comunicação com o cérebro digital dos seus clientes. Hoje as empresas que têm maior sucesso, maior valor de mercado no mundo, têm um aplicativo rodando dentro do celular de seus clientes, colaboradores e fornecedores.

Ele conclui explicando que essa iniciativa é de uma relevância enorme tanto para iniciar o processo de transformação digital, como para acelerá-lo.

No longo prazo: instalação de ecossistemas integrados e cultura de inovação

As consequências dessas iniciativas envolvem a instauração de uma cultura de inovação, com toda uma revisão nos modelos de negócio da empresa. Mas, nas palavras do especialista, “ninguém vai conseguir fazer a transformação digital sozinho”, no tempo requerido. Isso quer dizer que o objetivo, no longo prazo, é ter uma verdadeira integração de múltiplas áreas da empresa.

Ter os setores de tecnologia orquestrando um ecossistema integrado com as áreas de automação, financeira e de recursos humanos, por exemplo, é o que vai garantir a instauração dessa cultura de inovação necessária para recuperar o atraso frente à automação industrial mundial.

Diante dessa leitura, você viu que ainda há muito o que fazer para fortalecer a Indústria 4.0 no Brasil. Para tanto, nosso entrevistado deu dicas valiosas, que envolvem desde o estabelecimento imediato de cargos voltados para a transformação digital, até a busca por uma cultura de inovação que integre todas as áreas da empresa.

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